Abriu as pálpebras e todas as sombras do amanhecer entraram por elas. Eram manchas volumosas – “A alma dos objetos é opaca”, dizia seu psicanalista – que lhe permitiram divisar alguns móveis surrados e, além disso, um corpo fantasmagórico limpando o chão com um pequeno esfregão. “Merda”, cuspiu na madeira contra a qual o lado mais feio de seu rosto de Twiggy-face-of-1966 se comprimia. “Merda”, e sua voz soou como a de um desenho animado em preto e branco numa noite de sábado. Imaginou-se ali mesmo onde estava, no chão, mas com o rosto de Twiggy, que na verdade era o seu, exceto pela cor-pato-clássico das sobrancelhas da modelo inglesa; sobrancelhas-pato-de-banheira que não se pareciam em nada com a palha queimada sem depilar que ela tinha sobre os olhos. Embora não pudesse se ver, sabia a forma exata em que seu corpo jazia e a expressão pouco graciosa que devia ter naquele brevíssimo instante de lucidez. A consciência total de sua imagem deu-lhe uma falsa sensação de controle, mas não a tranquilizou por completo porque, infelizmente, o autoconhecimento não fazia de ninguém uma Mulher-Maravilha, que era o que ela precisava ser para se libertar das cordas que amarravam suas mãos e pernas, como faziam as atrizes mais glamorosas em seus thrillers favoritos. Um romance sutil e delicado, que aborda a dor da separação e a passagem do tempo na planície – morada e metáfora, inclusive para o cultivo da própria escrita. "Na cidade, perde-se a noção das horas, da passagem do tempo. No campo isso é impossível." Esse é o começo da história de um homem que muda de endereço, da cidade para o campo, em busca de seu passado e de seu futuro. Após o fim da relação com o namorado, o protagonista e narrador sai à procura de isolamento num lugar onde o tempo é quase palpável e é possível cultivar a memória, viver o luto e se reestruturar para uma nova vida. Em Planícies, o espaço é a província, o interior da Argentina e suas paisagens, em contraponto à vida na metrópole. As reflexões desse personagem, tam-bém escritor, aproximam a elaboração das perdas, o luto e os processos da escrita dos cuidados com uma horta, sem deixar de recorrer à infância, à memória e ao ama-durecimento. Prosa carregada de poesia e precisão, entre silêncios e aprendizagens, que aponta para a importância de contarmos nossas histórias. Diante do olhar maravilhado do filho, o casal dança ao som de "Mr. Bojangles", na voz de Nina Simone. O amor que os une é mágico, louco, vertiginoso, uma eterna festa. Em sua casa só há lugar para o prazer, a fantasia e os amigos. Quem dá o tom e comanda a dança é a mãe, qual um fogo-fátuo imprevisível e extravagante. E foi ela quem adotou o novo membro da família, Mademoiselle Supérflua, um pássaro grande e exótico que perambula pelo apartamento, bica os convidados e usa coleira de pérolas. É também a mãe quem a todo instante os arrasta para um turbilhão de poesia e sonho. Um dia, porém, ela vai longe demais. E pai e filho farão de tudo para que a festa continue.