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نویسندهالهام‌گیری

Rosa Candida

Audur Ava Ólafsdóttir

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مشخصات کتاب

سال انتشار
۲۰۱۵
فرمت
EPUB
زبان
pt
حجم فایل
۴۰۹٫۶ کیلوبایت
شابک
9788579624049، 8579624045

دربارهٔ کتاب

## Para minha mãe Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente. GÊNESIS 1,29 Um Como estou deixando o país e é difícil dizer quando voltarei, meu velho pai de setenta e sete anos quer tornar memorável nosso último jantar juntos. Ele vai preparar alguma coisa do caderno de receitas de minha mãe -alguma coisa que ocorresse a ela cozinhar em circunstância parecida. -Pensei -ele diz -no hadoque empanado e depois na sopa de cacau com creme de leite fresco. Enquanto meu pai tenta se virar com a sopa de cacau, vou buscar meu irmão no centro social no velho Saab com dezoito anos de uso. Jósef já está à minha espera, plantado na calçada e visivelmente satisfeito em me ver. Todo arrumado para a minha noite de despedida, usa a última camisa que mamãe comprou para ele, roxa com borboletas estampadas. Enquanto meu pai doura a cebola, e os filés de peixe aguardam, prontinhos, em seu leito de farinha de rosca, vou à estufa pegar as mudas de rosa que levarei comigo. Papai me alcança, com uma tesoura na mão para cortar a cebolinha destinada ao hadoque, e Jósef, calado, segue-o feito uma sombra. Ele nunca mais entrou na estufa depois que viu os estilhaços deixados pela tempestade de fevereiro, que reduziu a pó um monte de vidraças. Fica do lado de fora, perto do monte de neve acumulada, e nos acompanha com o olhar. Papai e ele usam coletes iguais, tom avelã com losangos amarelos. -Sua mãe não deixava faltar cebolinha no hadoque -diz meu pai, enquanto pego a tesoura de suas mãos e me estico para alcançar, no canto da estufa, a erva sempre verdejante, da qual lhe estendo um punhado. Sou o herdeiro universal da estufa da mamãe, papai não cansa de lembrar. Não se trata de um cultivo de grande envergadura, como trezentos e cinquenta pés de tomate e cinquenta mudas de pepino que passassem de mãe para filho; não, são simplesmente rosas que crescem sozinhas, sem exigir cuidados especiais, e talvez a dúzia de pés de tomate que sobrou. Papai se encarregará de regar na minha ausência. -Nunca liguei muito para legumes, Lobbi, quem gostava dessas coisas era sua mãe. O limite do meu estômago é um tomate por semana. Quantos acha que colheremos em cada pé? -Dê um jeito de distribuí-los, então. -Não fica bem bater na casa dos vizinhos cheio de tomates nas mãos. -E Bogga? Falo isso por desconfiar que a velha amiga de minha mãe tem os mesmos gostos de meu pai. -Francamente, não me imagino levando três sacos de tomate para Bogga toda semana. Ela passaria a me convidar para jantar. Pressinto imediatamente o que dirá em seguida. -Eu queria ter convidado a moça e a criança -prossegue -, mas vá saber se você aprovaria. -Pois é, eu teria discordado. A moça, como você diz, e eu não somos nem nunca fomos um casal, mesmo tendo um filho juntos. Foi um acidente. Já coloquei as coisas em pratos limpos e meu pai certamente compreende que a criança é fruto de um instante de imprudência, meu convívio com a mãe tendo se limitado a um quarto, ou melhor, um quinto de uma noite. -Sua mãe não se oporia a convidá-las para o seu último jantar aqui. Sempre que o meu pai tem necessidade de dar peso às suas palavras, exuma minha mãe do túmulo para ganhar reforço. De minha parte, sinto-me estranhíssimo ao me ver exatamente no cenário da procriação, se é que posso dizer assim, na companhia de meu velho pai e com meu irmão gêmeo especial bem ali, atrás do vidro. Meu pai não acredita em coincidências, pelo menos no que se refere aos acontecimentos primordiais da existência, como nascimento e morte; uma vida não começa e termina dessa forma, aleatoriamente, ele diz. Não lhe entra na cabeça que a concepção possa resultar de um encontro inesperado, que estar na cama com uma mulher possa ser fruto do acaso, assim como não consegue entender que a morte possa resultar de uma poça d'água ou de óleo numa curva, preferindo apostar em outra coisa: nos números e cálculos aritméticos. Meu pai pensa as coisas por outro viés, o mundo se resume a números; eles estão no próprio cerne da criação, e as datas são uma fonte de beleza e verdade profunda. Para o meu pai, o que eu chamo de acaso ou oportunidade, conforme a circunstância, faz parte de um sistema complexo. Excesso de coincidências é coisa que não existe, uma vez, vá lá, três, não; não existem coincidências em série, ele diz: o aniversário de minha mãe, a data de nascimento de sua neta e o dia da morte de minha mãe, tudo caindo no mesmo dia do calendário, 7 de agosto. Para ser sincero, não entendo os cálculos do meu pai. Minha experiência diz que é justamente quando passamos a contar com determinada coisa que outra completamente diferente acontece. Não tenho nada contra as manias de um eletricista aposentado, desde que seus cálculos não incluam o meu descuido em matéria de preservativos. -Não está saindo de fininho, Lobbi? -Não, me despedi delas ontem. Como não dou trela, ele muda de assunto. -Sabe se por acaso sua mãe tem uma boa receita de sopa de cacau? Comprei creme de leite. -Não, mas talvez a gente possa descobrir um jeito de fazer. ## Dois Quando volto da estufa, Jósef está sentado à mesa, todo empertigado, as mãos nos joelhos, a gravata vermelha sobre a camisa roxa. Meu irmão demonstra grande interesse por roupas e cores; está sempre de gravata, como papai. Papai pilota o fogão, com duas bocas acesas: para a panela de batatas e a frigideira. Parece um pouco atrapalhado, talvez estressado com a minha partida. Fico zanzando em volta dele e despejo óleo na frigideira. -Sua mãe usaria margarina -ele diz. Não sou mais versado do que ele no campo da culinária; na cozinha, limitava-me a abrir os vidros de repolho roxo e a rodar o abridor nas latas de ervilha. Claro, mamãe me fazia lavar a louça e incumbia Jósef de enxugá-la. Ele levava um tempo absurdo em cada prato e eu terminava por lhe arrancar das mãos o pano para concluir a tarefa. -Não vejo muitas chances de você voltar a comer hadoque nos próximos meses, Lobbi -diz meu pai. Não quero decepcioná-lo dizendo que, depois de quatro meses no mar às voltas com vísceras de peixe, isso vai ser um alívio. Querendo paparicar os seus rapazes, ele nos surpreende com um molho curry. -Segui uma receita de Bogga -diz. O molho exibe um verde bonito e incomum, lembrando um capinzal agitado sob um temporal de primavera. Pergunto de onde vem aquela cor. -Coloquei curry e um corante -ele explica. Noto que pegou um pote de geleia de ruibarbo e o colocou junto ao meu prato. -É o último pote que sobrou da sua mãe -ele diz, e observo seus ombros enquanto ele mexe o molho na panela, vestido em seu colete avelã com losangos. -E não vai servir a geleia com o peixe? -Não, achei que você gostaria de levar para a viagem. Meu irmão Jósef é calado e meu pai não fala muito à mesa, de modo que a conversa não flui. Sirvo uma porção para o meu irmão gêmeo e parto suas batatas ao meio. Ele claramente abomina o molho verde, raspa-o do peixe com cuidado e o empurra para a beira do prato. Observo meu irmão de olhos Três Não levo muita coisa comigo e meu pai se surpreende com minha bagagem compacta. Embrulho as mudas em folhas de jornal molhadas e as coloco no bolso da frente da mochila. Partimos no Saab, que papai tem desde que me entendo por gente, Jósef em silêncio no banco de trás. Meu pai usa a boina basca que costuma exibir quando pega a estrada fora da cidade. Depois do acidente, ele roda muito abaixo do limite de velocidade, não ultrapassando quarenta quilômetros por hora. Avança tão lentamente através do campo acidentado de lava sólida que me permite contemplar à vontade os passarinhos empoleirados a intervalos regulares sobre as pedras arroxeadas pela aurora, como se ao infinito, compasso atrás de compasso, qual a partitura melancólica de uma peça musical em crescendo. A propósito, meu pai não é um motorista experiente, mamãe é quem costumava dirigir. Uma longa fila de carros se formou atrás de nós, e eles tentam sistematicamente nos ultrapassar. Isso não tira a concentração do meu pai ao volante. E eu tampouco receio perder o avião, pois ele está sempre adiantado, em quaisquer circunstâncias. -Quer que eu dirija, pai? -Não, Lobbi, obrigado pela gentileza. Aproveite a paisagem que você vai abandonar em breve; não voltará a ver um campo de lava tão cedo. Ficamos calados por um momento, durante o qual aproveito a paisagem que estou prestes a abandonar. Um pouco adiante, deixando para trás o entroncamento que dá acesso ao farol, meu pai faz questão de sondar os meus planos, o que pretendo fazer da vida. Meu interesse por horticultura não o deixa muito entusiasmado. -Espero que não se zangue com o seu velho pai se ele lhe fizer umas perguntinhas sobre seus planos: não é indiscrição nem fruto de mau pressentimento. -Tudo bem. -Já decidiu o que vai estudar? -Fui contratado para fazer jardinagem. -Um rapaz inteligente como você. -Vamos, pai, não comece. -Acho que está jogando fora seu talento, Lobbi. Difícil fazer o meu pai entender: o jardim e as rosas na estufa eram uma paixão que mamãe e eu compartilhávamos. -Mamãe entenderia. -Sim, sua mãe sempre apoiava suas iniciativas. O que não quer dizer que era contra você cursar a universidade. Quando mudamos para o bairro novo, era uma região inóspita, com placas de terra árida e rochas cercadas de cascalho. Havia novos prédios e fundações em toda parte, rodeados de uma água amarela. Os arbustos, baixos e esparsos, só chegaram bem mais tarde. O bairro dava para o mar e o vento era implacável, o que impossibilitava criar um recanto protegido nos jardins. As pessoas tinham desistido de plantar amores-perfeitos em seus canteiros. Minha mãe foi a primeira no bairro a tentar plantar uma árvore, e no início foi vista como um pouco excêntrica por tentar o impossível. Enquanto os outros se limitavam a plantar grama e, na melhor das hipóteses, uma cerca viva entre os jardins para poderem tomar banho de sol ao ar livre nos três dias de tempo bom do verão, ela plantava uma giesta, um bordo, um freixo e um arbusto de flores no recanto mais protegido da casa. No entanto, nunca desistiu, mesmo tendo de plantar as mudas diretamente na pedra. No verão seguinte, meu pai construiu a estufa, na área sul da casa. Começamos cultivando as mudas ali dentro antes de transplantá-las para o jardim, na primeira ou segunda semana de junho, quando já não há mais geadas à noite. Nossa ideia inicial era deixá-las do lado de fora a maior parte do verão, depois acomodá-las na estufa. Mas, se contássemos com a sorte de ter um belo outono, estenderíamos em um mês sua temporada ao ar livre. Depois veio o inverno em que deixamos nossas mudas sob um monte de neve de dois metros de altura. E no fim tudo começou a brotar no jardim da minha mãe, tudo parecia germinar em suas mãos. De centímetro em centímetro, a gleba de terra transformou-se num jardim encantado que chamava atenção e provocava espanto. Depois que a minha mãe morreu, foi a mim que as vizinhas passaram a pedir conselhos. É preciso alguns cuidados, mas, acima de tudo, tempo -esta era, resumidamente, a filosofia da jardinagem de mamãe. -Não nego que sua mãe e você tinham seu mundinho, do qual nem Jósef nem eu fazíamos parte. Talvez não fôssemos capazes de compreendê-lo. Naqueles últimos tempos, meu pai dera para falar de Jósef e ele como se fossem um só. Ele diz Jósef e eu, a gente... Às vezes, nas noites de verão, minha mãe cismava de sair para trabalhar no jardim ou entreter-se na estufa. Era como se não precisasse dormir como todo mundo, especialmente no verão. Quando eu voltava, à noite, depois de um programa com os colegas, topava com a minha mãe no canteiro, com seu balde de plástico vermelho e suas luvas de jardinagem estampadas com flores cor-de-rosa, enquanto papai dormia a sono solto. Evidentemente, não havia vivalma nas ruas e tudo estava incrivelmente calmo. Mamãe acenava para mim e olhava como se soubesse sobre mim alguma coisa de que eu mesmo não fazia ideia. Então eu me sentava ao seu lado durante um momento, arrancando as ervas daninhas, para me ocupar com alguma coisa e lhe fazer companhia. Se estivesse com uma garrafa de cerveja pela metade, fincava-a no canteiro de amores-perfeitos antes de me deitar, apoiando a cabeça nas mãos, para ver a passagem das nuvens. Quando queria ficar sozinho com ela, ia encontrá-la na estufa ou no jardim, onde podíamos conversar. Às vezes ela parecia estar com a cabeça longe e, quando eu perguntava em que pensava, ela respondia "sim, sim, o que você diz me agrada muito". E seu sorriso exprimia concordância e incentivo. -É que não há muito futuro na jardinagem para um indivíduo brilhante como você -diz meu pai. -Não vejo em que eu seria um indivíduo brilhante. -O fato de seu pai ser idoso não significa que esteja senil, Lobbi. Acontece que guardei todos os seus diplomas. Aos doze anos, primeiro da classe; aos dezesseis, formado com distinção. -Não acredito que você guarda essa tralha. -Estava em algum lugar no fundo de uma caixa de papelão na despensa. -Jogue essa papelada fora, pai! -Tarde demais, Lobbi. Thröstur, o homem das molduras, está enquadrando tudo. -É uma piada, por acaso? -Quer dizer que não pretende cursar uma faculdade? -Por enquanto, não. -Botânica, por exemplo? -Não. -Biologia? -Não. -Fitobiologia ou fitogenética, então, com biotecnologia agroalimentar como segunda opção? Está claro que pesquisou sobre o assunto. Mantém as mãos crispadas no volante e não desgruda os olhos da estrada. -Não, não me interessa ser pesquisador ou professor universitário. É na terra molhada que me sinto no meu elemento; é outra coisa poder tocar plantas vivas, ninguém sente a fragrância do capim depois da chuva dentro de um laboratório. Difícil descrever em palavras nosso universo, meu e da minha mãe, para o meu pai. O que me interessa é o que cresce num solo fértil. -De qualquer forma, quero que saiba que fiz uma pequena poupança, à qual poderá ter acesso se desejar prosseguir seus estudos e cursar a universidade. É uma coisa separada da herança da sua mãe. Jósef está feliz onde está -acrescenta. -Naturalmente, cuidarei para que nunca lhe falte nada. -Obrigado por tudo. Não levo adiante a conversa sobre jardinagem. Tampouco digo ao meu pai eletricista que ainda nem sei direito o que quero. Que é complicado decidir sua vida de uma vez por todas num dado momento. Ele diria: "Ninguém vai longe com sonhos, Lobbi". Minha mãe, por sua vez, teria dito: "Realize os seus sonhos". E depois teria olhado pela janela da cozinha como se percorresse com os olhos extensões situadas bem além de suas terras e não os poucos metros que a separavam da estufa e do cercado, não como se o jardim fosse um recanto florido cuja profusão de plantas e árvores e toda a vegetação ocultassem o mundo exterior, mas como se ela esperasse a visita de hóspedes vindos de longe. Em seguida, teria despejado numa tigela o conteúdo de um pacote de ameixas secas e colocado sob o jato da torneira, deixando a água transbordar. -Claro que trabalhar com jardinagem é melhor do que enjoar num barco velho por meses a fio -conclui o meu pai. ## Quatro Rodamos em silêncio pela estrada, atravessando o campo de lava. Ainda carrego no estômago o jantar de despedida e tenho a impressão de que o malestar, cuja origem deve remontar ao molho verde, está em vias de se transformar em dor crônica, aqui, no meio da lava, não longe do lugar onde o carro da minha mãe capotou. Reconheço a curva em que ela saiu da estrada; há uma pequena depressão relvada. Posso visualizar o lugar onde tiveram de cortar as ferragens para removê-la. -Sua mãe, que era dezesseis anos mais jovem que eu, não deveria ter ido antes de mim -diz meu pai, no momento em que passamos pelo local. -É, ela não deveria ter ido antes de você. Minha mãe às vezes tinha umas ideias malucas, como pegar a estrada de madrugada para ir colher mirtilos no dia de seu aniversário, em algum recanto misterioso e que lhe era querido. Mais tarde nos convidava, a nós, os rapazes, como nos chamava, a papai, Jósef e a mim, para comer waffle de mirtilos frescos com chantili. Agora me dou conta de como às vezes deve ter sido duro ter somente homens em casa, nenhuma outra mulher. Não tenho a mínima pressa de me aproximar de minha mãe dentro do carro capotado na depressão da lava. Gasto todo o tempo do mundo observando a natureza, pairando um plano acima do local do acidente, como um cameraman fazendo uma tomada aérea do alto de uma grua, antes de me dedicar à minha mãe propriamente dita, a protagonista em torno de quem tudo gravita. Estamos em 7 de agosto e decido que o outono já começou. Daí o excesso de vermelho e dourado flamejando na natureza; visualizo todos os tons de vermelho no local do acidente: a touceira ruiva, o céu sangrento, as folhas carmim em ramos próximos, o musgo magenta. Até a minha mãe usava um colete bordô e não vimos o sangue coagulado antes de papai enxaguar a lã no tanque lá de casa. Detendo-me nos detalhes do cenário, como quando examinamos o fundo de um quadro antes de passar ao motivo principal, adio a hora da morte da minha mãe. Faço o tempo se esgarçar até o inelutável, até a hora do adeus. Ora a cena pede que minha mãe ainda esteja dentro do carro acidentado, ora acabam de serrar a carroceria para soltá-la e estendê-la no terreno. Decido que isso se dará numa plataforma na concavidade da lava, como se houvessem fatiado o topo de dois montículos de terra para a relva crescer, e é ali que a depositam com extremo cuidado. No meu roteiro, ora ela ainda dá sinais de vida, ora está morta. Meu pai vai tão devagar que posso perceber a árvore, ela continua no lugar onde a plantei, um pinheiro-anão, tentativa de reflorestamento em meio a um campo de lava áspera, árvore solitária na rocha agreste, é como consagro o local à mamãe. -Está com frio? -pergunta meu pai, pondo a calefação no máximo. Quase assamos dentro do carro. -Não, não estou com frio. Em compensação, sinto uma fisgada na barriga, mas não falo nada com meu pai. Seu estado de nervos me preocupa; mamãe também era ansiosa, mas, pelo menos, me compreendia. -Muito bem, Lobbi, estamos quase lá, já dá para ver os aviões. Justo no momento em que nos aproximamos do aeroporto, um manto escuro se ergue da cadeia de montanhas; logo abaixo, os raios do alvorecer desenham uma voluta de fumaça azul-claro e o sol horizontal de fevereiro reflete nos vidros embaçados dos automóveis. Meu pai e meu irmão me acompanham até o saguão de embarque. Ao se despedir, meu pai me estende alguma coisa embrulhada em papel de presente. -Abra quando chegar -diz. -Quem sabe então se lembre do seu velho na hora de dormir. Ao me despedir, abraço-o com força, porém não por muito tempo, apenas passo o braço ao redor de seu ombro e lhe dou uns tapinhas nas costas, como um homem. Em seguida, repito o gesto com meu irmão Jósef, que volta prontamente ao lugar junto ao nosso pai e pega sua mão. Papai puxa então um grande envelope do seu bolso de trás e me estende. -Passei no banco e saquei um pouco de dinheiro; a gente nunca sabe o que pode acontecer no estrangeiro. Volto-me pela última vez para ver meu pai e meu irmão gêmeo deixarem o terminal de mãos dadas. Metade da carteira do meu pai está para fora do bolso. Pai e filho vestem jaquetas cinza que o pai comprou recentemente. Impossível dizer qual está mais bem-vestido. Jósef é o exato oposto de mim, tanto em aspecto como em tamanho: é baixo, tem os olhos castanhos e a pele escura como se viesse de praias ensolaradas. Não fosse pela combinação de cores da roupa, meu gêmeo, o especial, poderia passar por um piloto comercial, de tal modo cuida da aparência. Decido gravar na memória sua imagem com a camisa roxa estampada com borboletas. Quando amanhecer de verdade, estarei longe da lama; o sal da terra subsistirá apenas sob a forma de anéis brancos na borda dos meus sapatos. ## Cinco É no instante preciso em que o avião deixa a pista e se eleva acima de sua película rosada de gelo que sinto a pontada na minha barriga acentuar-se nitidamente. Debruço sobre a passageira ao meu lado e, pela janelinha, dou um último relance na montanha lá embaixo, toda manchada de branco, como um lombo de carne gordurosa. A mulher usa um suéter amarelo de gola rulê. Gentilmente, retrai-se no encosto do assento para permitir que eu desfrute da vista, e logo me canso de comparar o tamanho de seus seios com o rosário de crateras, desinteressando-me da paisagem. Pois, embora isso devesse me aliviar, a pontada na barriga me impede de apreciar plenamente a liberdade de estar acima de tudo que está embaixo. Mais do que ver, tomo consciência de todo aquele sêmen viscoso: a lava negra, o feltro amarelado da relva seca, os rios leitosos, o terreno acidentado, os pântanos, os campos de tremoço selvagem e, mais além, a pedra infinita. Existe algo mais frio e antipático do que a rocha? Nenhuma rosa se arriscaria a brotar em meio a estilhaços de pedra. Tudo bem, é realmente um belíssimo país, adoro vários de seus aspectos -lugares e pessoas -, mas sua moldura ideal é um selo do correio. Pouco depois da decolagem, levanto-me para verificar como estão as mudas de roseira na minha mochila a dez mil metros de altitude. Estão acondicionadas em jornais molhados, e amoldo essa massa úmida em torno dos caules verdes. É sem dúvida sintomático do meu estado de saúde, e ao mesmo tempo prova da malícia do acaso, eu ter escolhidoinvoluntariamente -as páginas dos obituários do dia. No exato momento em que me liberto dos laços terrenos, não é anormal pensar na morte. Tenho vinte e dois anos, nada mais natural do que mergulhar várias vezes por dia em meditações sobre a morte. E, em segundo lugar, sobre o corpo -o meu e o dos outros. E, em terceiro lugar, sobre as rosas e outras plantas. Claro, não necessariamente nessa ordem. Guardo mais uma vez as plantas na mochila e volto a me sentar ao lado da mulher. Não bastasse a pontada, que está se transformando em dor insuportável, sinto engulhos; aperto minha barriga com as mãos e me debruço para a frente. O barulho do motor me lembra a balsa, e a náusea, meus quatro meses de convívio com um enjoo marítimo crônico. O mar não precisava estar encapelado: era só eu pisar a bordo da embarcação para o meu estômago revirar e eu perder todas as minhas referências. Quando a trepidação aumentava no casco de aço e jogava o barco ritmicamente contra o cais, o suor frio da náusea brotava e, na hora de largar as amarras, eu já tinha vomitado uma vez. Quando não conseguia dormir de tão mareado que estava, ia para o convés e mergulhava na bruma. A linha do horizonte subia e descia, enquanto eu tentava me controlar. Após nove expedições pesqueiras, eu me tornara o homem mais pálido da Terra; até os meus olhos pareciam flutuantes, com uma tonalidade azul aquosa. -É chato ser ruivo -disse o mais veterano -, são os que mais enjoam no mar. -E é raro voltarem -reforçou o outro. ## Seis As aeromoças esgueiram-se por entre os assentos, suas pernas morenas envoltas em meias de náilon e seus saltos altos estão bem na minha linha de mira, por mais encolhido que eu me encontre na poltrona. Elas não me perdem de vista e deslizam ao longo da fuselagem em várias idas e vindas para verificar se estou bem, espanar meu encosto de cabeça, me trazer um travesseiro e um cobertor, bajular e paparicar. -Deseja um travesseiro, deseja um cobertor? -perguntam, ar preocupado, instalando um travesseiro atrás da minha cabeça, cobrindo-me com um cobertor. Depois seguem para a parte de trás do avião a fim de confabular. -O senhor está doente? -pergunta a passageira de suéter amarelo de gola rulê, ao meu lado, na janela. -É, não estou me sentindo muito bem -respondo. -Não tenha medo -ela diz, sorrindo, enquanto ajeita o cobertor sobre mim. Noto agora que ela poderia ter a idade da minha mãe. Três mulheres cuidam de mim no avião; sou um bebê, prestes a abrir o berreiro. Endireitome no assento e faço o melhor que posso para remover a cobertura de alumínio de minha bandeja descartável. Na passagem seguinte da aeromoça, pergunto o que foi que me serviram. -Vou checar -ela diz, desaparecendo na traseira da fuselagem. Ela não volta imediatamente e, para demonstrar à mulher sentada ao meu lado que sou um rapaz cuja boa educação minha mãe confirmaria, estendolhe a mão e me apresento. -Arnljótur Thórir. E, para completar, vasculho o bolso do casaco de couro e pego o retrato de um bebê com a cabeça de fora em seu macacão verde. É bem possível que ela julgue pouco viril viajar com mudas de flor embrulhadas em obituários encharcados, ou vomitar a refeição do voo, mas não lhe dou tempo de fazer perguntas indiscretas a respeito do meu estado nem tampouco de me oferecer um pedaço de chocolate, e me apresso a tomar a dianteira. -É minha filha -digo, estendendo-lhe a foto. Ela parece se surpreender, depois sorri amistosamente, procurando os óculos na bolsa. Pega o retrato e se aproxima da luz. -Bonita criança -diz. -Tem quantos meses? -Tinha cinco quando a foto foi batida. Hoje, seis meses e meio. Minha intenção era falar seis meses e dezenove dias, mas a pontada na barriga não permite que eu me alongue. -Criança bonita e esperta -ela insiste -, com grandes olhos claros. Talvez não tenha muito cabelo para uma garotinha. Para ser franca, achei que era menino. A mulher olha com simpatia para mim. -Ela tinha acabado de acordar e haviam tirado a touquinha -digo -, daí os cabelos estarem amassados assim. É, tinham acabado de tirá-la do carrinho. Pego novamente o retrato e o guardo no bolso. Não tenho nada a acrescentar quanto à escassez capilar de minha filha, de maneira que o assunto está encerrado. Aliás, uma dor preocupante não demora a ofuscar qualquer outro pensamento. Preciso vomitar de novo e quando fecho os olhos vejo mentalmente o molho verde-maçã cobrindo o peixe frito. A mulher ao meu lado me olha com ar preocupado. Não tenho forças para continuar a conversa, por isso finjo ter mais o que fazer e me contorço até a mochila. Dela retiro o livro contendo o meu herbário e -ironia do destino -abro-o justamente na página das plantas mais antigas, a dos trevos de seis folhas que eu colhi, todos na mesma manhã, no quintal dos fundos de nossa casa. Papai achou curioso eu ter encontrado três trevos de seis folhas no dia dos meus seis anos, como se fosse um bom presságio para a festa de aniversário que faríamos mais tarde ou um sinal de que um sonho se realizaria sob a forma de uma árvore só para mim no jardim, na qual eu poderia trepar. -É um herbário? -pergunta minha vizinha, com evidente interesse. Fujo da pergunta e ergo delicadamente um dos trevos para aproximá-lo da luzinha de leitura do avião. É o último que continua inteiro, rijo e frágiluma florzinha eterna. Para alguém que deve estar com uma grave intoxicação alimentar, e no ponto em que se encontra a minha vida, é sem dúvida simbólico o fato de o caule estar por um fio. ## Sete -Tem certeza de que consegue se virar sozinho? -perguntam as aeromoças, enquanto tento sair do avião na posição ereta. -O senhor está muito pálido. No momento em que deixo a aeronave, uma delas me toca no ombro e diz: -Tentamos descobrir a natureza exata da refeição. Duas aeromoças provaram, mas não chegamos a um consenso. Sorry. Mas é definitely peixe à milanesa recheado com requeijão ou frango à milanesa recheado com requeijão. Um funcionário do aeroporto rabisca um endereço num pedaço de papel, que amasso na palma suada da mão. Encontro-me numa cidade onde nunca estive. É minha primeira escala no exterior e estou encolhido no banco de trás de um táxi. A mochila está ao meu lado e brotos verdes saem da maçaroca de jornais no bolso externo. Pensando bem, não tenho muita certeza de estar sozinho no táxi; não excluo a possibilidade de a mulher do suéter amarelo de gola rulê ter me acompanhado até o meu destino. Quando o carro para num sinal vermelho para que os pedestres atravessem, vejo as pessoas se olhando nos vidros do veículo. De vez em quando o motorista me espia pelo retrovisor. No banco da frente, um grande cão policial, a língua salivando e pendendo da boca. Não consigo ver se está preso numa coleira, mas não tira os olhos de mim. Fecho os olhos, e quando volto a abri-los, o carro está parado em frente ao hospital e o motorista voltado em seu assento me encarando. Ele me faz pagar o dobro por ter vomitado no táxi. Não parece especialmente com raiva, e sim surpreso ante o caráter irresponsável de minha conduta.

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